Quando o céu do sertão nordestino se fecha e os primeiros trovões ecoam, o sentimento que toma conta das comunidades rurais não é de desolação, mas de alívio e renovação. É sob o clássico presságio popular da expressão ‘Tá bonito pra chover’ que a grife cearense Catarina Mina construiu sua nova narrativa nas passarelas. A apresentação ocorreu durante a 61ª edição do São Paulo Fashion Week, marcando um dos momentos mais simbólicos da temporada ao unir alta moda, sustentabilidade e tradição ancestral.
Inspirada na relação profunda entre o sertanejo, a caatinga e a chegada das águas, a nova coleção funciona como uma metáfora de prosperidade. O desfile refletiu a capacidade de regeneração do bioma árido, conectando os ciclos climáticos à valorização do artesanato brasileiro, em um momento em que a indústria global busca caminhos mais autênticos e conectados às identidades locais.
Resgate de técnicas ancestrais da moda nordestina
Além de celebrar os elementos naturais, a coleção consolidou o processo de expansão territorial da marca para além das divisas do Ceará. Na busca por valorizar técnicas tradicionais e fortalecer polos comunitários, a etiqueta ampliou sua rede colaborativa alcançando artesãs no Piauí e intensificando a presença de núcleos produtivos no Rio Grande do Norte.
Ao todo, a nova coleção reuniu nove tipologias artesanais distintas, trazendo à passarela peças complexas que desafiam a lógica da produção em massa. Entre as novidades apresentadas, duas técnicas foram incorporadas pela primeira vez ao repertório da grife: a rede de travessa e a rara renda de tramóia. Esta última, segundo a produção, encontrava-se em risco crítico de desaparecimento na região e foi revitalizada por meio de uma articulação conjunta entre prefeituras, pesquisadores acadêmicos e designers de moda.
Texturas, geometrias e a cartela de cores do semiárido
A pesquisa estética do desfile traduziu visualmente o percurso das águas e o impacto da umidade sobre a vegetação. A tradicional renda de bilro, confeccionada por mestras do município de Trairi, no litoral cearense, reapareceu com intervenções gráficas modernas. O entrelaçado dos fios ganhou padrões geométricos que mimetizam os veios que a chuva talha sobre o solo seco, remetendo a afluentes que correm até encontrar os leitos fluviais.
O crochê teve destaque central na composição das peças de vestuário e na linha de acessórios. Confeccionadas por mãos de artesãs de Itaitinga, no Ceará, e das cidades de Caicó e Acari, ambas no sertão potiguar, as tramas mesclaram tonalidades estratégicas:
- Nuances de azul que evocam o prenúncio da chuva nas nuvens;
- Tons de off-white que dialogam com a luz pura e o linho rústico;
- Pinceladas em bronze e vermelho, simbolizando a terra fértil e o calor sertanejo.
O protagonismo humano por trás da passarela
Mais do que apresentar tendências de vestuário, a diretora criativa da grife, Celina Hissa, enfatizou a dimensão social intrínseca a todo o processo de manufatura da marca. O propósito vai além do resultado têxtil: busca-se garantir a perpetuação dos ofícios tradicionais e a justa remuneração de quem mantém essas expressões vivas.
Nos bastidores da semana de moda, Celina enfatizou a responsabilidade de articular a alta-costura com a valorização de comunidades tradicionais. A estilista reiterou que a preservação cultural só existe quando as pessoas envolvidas são tratadas como patrimônio vivo, defendendo que o fazer manual só se justifica plenamente se o foco estiver na dignidade e na sustentabilidade financeira da artesã.
Para continuar por dentro das principais tendências da moda, manifestações culturais e bastidores que moldam a identidade do país, acompanhe a cobertura diária do Portal Meio Dia.